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Rodoviarismo no Brasil

Trecho da SP-160 (Rodovia dos Imigrantes) cruzando a Serra do Mar em São Paulo, Brasil.

O rodoviarismo é um conceito que define a priorização do transporte rodoviário como principal política de mobilidade e integração territorial, especialmente no Brasil, onde se consolidou ao longo do século XX. O termo abrange não apenas a construção e pavimentação de estradas, mas também todo o conjunto de ações, investimentos, políticas públicas e mentalidade voltados à expansão do modal rodoviário, em detrimento de outros sistemas como ferrovias e hidrovias. O rodoviarismo está profundamente ligado à modernização do país, à indústria automobilística e à ideia de progresso associada à circulação de pessoas e mercadorias por meio de veículos automotores.

O rodoviarismo brasileiro tem raízes no início do século XX, mas ganhou força a partir da década de 1920, especialmente com o então governador de São Paulo, Washington Luís, que cunhou a frase “Governar é abrir estradas”. Como presidente da República (1926-1930), Washington Luís inaugurou a primeira rodovia asfaltada do Brasil, a Rio-Petropólis, e criou mecanismos como o Fundo Especial para Construção e Conservação de Estradas de Rodagens Federais, além da Polícia Rodoviária Federal.[1][2]

O Estado de São Paulo foi pioneiro nesse processo, antecipando-se ao restante do país e investindo em uma malha rodoviária moderna mesmo quando já possuía uma densa rede ferroviária, resultado da expansão cafeeira desde o século XIX. A política rodoviarista foi intensificada durante o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), que, ao promover a construção de Brasília e a interiorização do desenvolvimento, priorizou a integração nacional por meio de rodovias. Nesse período, foram construídas importantes estradas como a Belém-Brasília e a Brasília-Rio Branco, além de incentivos à instalação da indústria automobilística no país. O objetivo era tanto integrar o território quanto atrair investimentos e gerar empregos, consolidando o modal rodoviário como dominante.[3]

Política e economia

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O rodoviarismo não foi apenas uma escolha técnica, mas também política e econômica. A defesa das rodovias envolveu legisladores, engenheiros, empresários do setor automobilístico, empreiteiras e setores das Forças Armadas do Brasil, formando um complexo de interesses que influenciou fortemente as decisões do Estado brasileiro.[4]

Marginal Pinheiros

O Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), criado em 1937, foi central para a expansão do rodoviarismo, mantendo autonomia burocrática e articulando grandes obras mesmo em períodos de instabilidade política. A opção pelo rodoviarismo teve impactos profundos na configuração territorial e econômica do Brasil.[5] O transporte rodoviário tornou-se responsável por mais de 60% do deslocamento de cargas e passageiros, enquanto ferrovias e hidrovias foram sucateadas ou relegadas a segundo plano.[6][7] Embora o modal rodoviário ofereça flexibilidade e capilaridade, ele apresenta custos elevados de manutenção, maior consumo de combustíveis fósseis e contribui para a concentração de investimentos em infraestrutura viária, muitas vezes em detrimento da qualidade e segurança das estradas.[8]

Engarrafamento no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, Brasil.

A hegemonia do rodoviarismo é alvo de críticas por especialistas em logística e planejamento urbano. O transporte rodoviário, apesar de sua flexibilidade, é menos eficiente em termos de custo-benefício para grandes volumes de carga, quando comparado a ferrovias e hidrovias.[9] Um caminhão transporta cerca de 30 toneladas, enquanto um trem pode transportar até 125 toneladas pelo mesmo custo, e as hidrovias ainda mais.[10] Além disso, a predominância das rodovias contribui para o aumento dos custos logísticos, acidentes, poluição e desgaste ambiental.[11] Desde a década de 1990, o Brasil iniciou processos de privatização e concessão de rodovias, transferindo parte da manutenção para a iniciativa privada e introduzindo pedágios. Programas como o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) buscaram diversificar os investimentos em infraestrutura, mas o modal rodoviário ainda predomina. Setores como o agronegócio e a mineração pressionam por melhorias logísticas, reconhecendo a necessidade de ampliar a integração entre diferentes modais para aumentar a competitividade internacional.[12]

Referências

  1. UOL Educação. «Transporte rodoviário: Por que o Brasil depende tanto desse sistema». UOL Educação. UOL. Consultado em 11 de julho de 2025 
  2. «Rodoviarismo e a construção do território brasileiro». Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. IHGB. Consultado em 11 de julho de 2025 
  3. Folha de S.Paulo (20 de agosto de 2000). «Rodoviarismo: a opção brasileira». Folha de S.Paulo. Folha de S.Paulo. Consultado em 11 de julho de 2025 
  4. Mundo Educação. «Rodoviarismo no Brasil. Efeitos do rodoviarismo no Brasil». Mundo Educação. UOL. Consultado em 11 de julho de 2025 
  5. Pedro Barros (10 de agosto de 2018). «Rodoviarismo no Brasil e suas consequências». Profes. Profes. Consultado em 11 de julho de 2025 
  6. DER-SP. «Departamento de Estradas de Rodagem do Estado de São Paulo». DER-SP. Governo do Estado de São Paulo. Consultado em 11 de julho de 2025 
  7. CNT. «Pesquisa CNT de Rodovias». Confederação Nacional do Transporte. CNT. Consultado em 11 de julho de 2025 
  8. Paulo César Ribeiro (2017). «Quando governar é abrir estradas: o processo de construção histórica do rodoviarismo em São Paulo». Scielo. Labor & Engenho. Consultado em 11 de julho de 2025 
  9. Paulo César Ribeiro (2017). «Quando governar é abrir estradas: o processo de construção histórica do rodoviarismo em São Paulo». Scielo. Labor & Engenho. Consultado em 11 de julho de 2025 
  10. Globo Educação (11 de outubro de 2014). «Mobilidade urbana». Globo Educação. Globo. Consultado em 11 de julho de 2025 
  11. Mundo Educação (22 de janeiro de 2015). «Rodoviarismo no Brasil. Efeitos do rodoviarismo no Brasil». Mundo Educação. UOL. Consultado em 11 de julho de 2025 
  12. Wilson Teixeira Moutinho (10 de julho de 2018). «Transporte Rodoviário no Brasil». Cola da Web. Cola da Web. Consultado em 11 de julho de 2025