
Um supervilão ou supercriminoso é uma variante do personagem vilão comumente encontrado em histórias em quadrinhos, geralmente possuindo habilidades sobre-humanas. Um supervilão é a antítese de um super-herói. Um super vilão feminino às vezes é chamado de supervilã.
Supervilões costumam ser usados como antagonistas para apresentar um desafio assustador a um super-herói. Nos casos em que o supervilão não tem poderes sobre-humanos, místicos ou alienígenas,[1] o mesmo pode possuir um intelecto de gênio ou um conjunto de habilidades que lhe permite traçar esquemas complexos ou cometer crimes de uma forma que os humanos normais não podem.[2][3] Outras características podem incluir megalomania e posse de recursos consideráveis para promover seus objetivos. Muitos supervilões compartilham algumas características típicas de ditadores, gangsters, cientistas loucos, caçadores de recompensas, empresários corruptos, assassinos em série e terroristas do mundo real, com aspirações de dominação mundial ou liderança universal.[4] Às vezes, a única diferença entre eles é o uso de suas capacidades: o herói busca ajudar os outros,[5] enquanto o vilão as utiliza de forma egoísta, destrutiva ou implacável.[6]
Tanto super-heróis quanto supervilões fazem uso de alter egos enquanto estão em ação. Embora, ocasionalmente, o nome verdadeiro do personagem seja conhecido publicamente, na maioria das vezes o alter ego é utilizado para proteger sua identidade secreta de inimigos e do público geral.
Para os super-heróis, a dualidade de identidade é mantida em segredo principalmente para proteger seus entes queridos de serem atacados e para evitar serem constantemente solicitados para problemas triviais. Esse segredo pode gerar situações dramáticas, como a necessidade de encontrar formas discretas de se transformar em seus alter egos sem serem descobertos, ou de lidar com o peso psicológico de manter essa vida dupla. .
No caso dos supervilões, a dualidade de identidade é mantida em segredo para ocultar seus crimes do público, permitindo que ajam livremente e de forma ilegal, sem risco imediato de serem capturados pelas autoridades.[6]
Histórico
[editar | editar código fonte]
A figura do supervilão, como conhecemos hoje, tem raízes profundas na literatura e no cinema do século XIX e início do século XX. Um dos primeiros exemplos é John Devil, criado por Paul Féval, pai, em 1862,[7] seguido pelo maquiavélico Coronel Bozzo-Corona, líder da organização criminosa Les Habits Noirs, também de Féval, em 1863.[8]
No documentário A Study in Sherlock, os escritores Stephen Moffat e Mark Gatiss afirmaram que consideram o Professor James Moriarty, cuja primeira aparição se deu em The Final Problem (1893), de Arthur Conan Doyle, um supervilão. Para eles, Moriarty se destaca por sua genialidade e habilidades de dedução, sendo o único capaz de representar uma ameaça real para Sherlock Holmes.
Outro exemplo de vilão pioneiro é Zigomar, personagem criado por Léon Sazie em 1909 para o jornal Le Matin. Zigomar é um criminoso mascarado com uma capuz vermelho, líder da "Bande des Z", que aterrorizava Paris com seus crimes engenhosos. O sucesso do personagem foi tamanho que Victorin Jasset dirigiu três filmes baseados em suas aventuras entre 1911 e 1913.[9][10]
Em 1911, surgiu Fantômas, criação de Marcel Allain e Pierre Souvestre. Mestre do disfarce e do crime, Fantômas tornou-se uma figura emblemática da cultura popular francesa. O cineasta Louis Feuillade consolidou ainda mais sua fama ao dirigir cinco seriados mudos estrelados pelo personagem: Fantômas (1913), Juve contre Fantômas (1913), Le Mort Qui Tue (1913), Fantômas contre Fantômas (1914) e Le Faux Magistrat (1914).[11]
Esse tipo de personagem se popularizou nos seriados de cinema, sendo um exemplo o The Hooded Terror em The House of Hate (1918). Nos seriados e filmes da época, o vilão frequentemente revelava-se alguém próximo aos protagonistas ou um personagem secundário importante. O autor, então, espalhava pistas e armadilhas ao longo da história para manter o público intrigado, criando um suspense que só seria resolvido na revelação final, quando a verdadeira identidade do vilão era descoberta.[12]
Em paralelo, em 1912, o autor inglês Sax Rohmer criou Fu Manchu, arquétipo do gênio criminoso e cientista louco. Fu Manchu se tornou símbolo de representações estereotipadas de vilões orientais no cinema e na televisão, associado ao conceito do "perigo amarelo". Entre 1965 e 1969, Christopher Lee interpretou o personagem em cinco filmes, e em 1973 Fu Manchu apareceu pela primeira vez nos primeira vez nos quadrinhos da Marvel.[13]
A década de 1930 foi um período em que floresceram os supervilões, paralelamente ao surgimento dos primeiros super-heróis. Entre 1931 e 1933, Leo O'Mealia adaptou Fu Manchu para uma tira de jornal.[14] Em 1934, o tirano de um planeta distante Ming, o Impiedoso, antagonista das aventuras de Flash Gordon, surgiu como outra figura clássica de supervilão do tipo "perigo amarelo", como um alienígena, Ming é marcado pela tirania e pelo desejo de dominação interplanetária.[15] Fu Manchu também apareceu nas revistas em quadrinhos: as tiras de Leo O'Mealia foram reimpressas a partir da edição 17 da revista Detective Comics (julho de 1938),[16] permanecendo até a edição 28.
No conto The Reign of the Superman (1933) de Jerry Siegel e Joe Shuster, o personagem principal era um homem comum que, após ser submetido a um experimento, ganhava poderes mentais e tentava conquistar o mundo, antecipando muitos dos temas típicos de supervilões. No ano seguinte, Siegel e Shuster remodelaram o conceito, transformando Superman em um herói para as tiras de jornal.[17]
No Brasil, merece destaque A Garra Cinzenta, tira publicada entre 1937 e 1939, com argumento de Francisco Armond e desenhos de Renato Silva. A Garra Cinzenta apresentava um criminoso mascarado e maquiavélico, com forte influência dos pulps da época, consolidando-se como um dos primeiros supervilões dos quadrinhos brasileiros. Entre 1944 e 1947, a tira foi publicada na Bélgica na revista semanal Le Moustique com o título La Griffe Grise. O primeiro supervilão a enfrentar regularmente um super-herói foi o Ultra-Humanite, introduzido em Action Comics #13 (1939) como o grande inimigo do Superman.
A busca por histórias simples, nas quais o bem triunfava claramente sobre o mal, ajudava a consolar o público e a amenizar os horrores da guerra e as incertezas do momento. Esse desejo explica a enorme popularidade dos super-heróis durante a Segunda Guerra Mundial. Atendendo à demanda dos leitores, os criadores passaram a narrar histórias em que super-heróis combatiam diretamente as forças do Eixo, incorporando temas de heroísmo, sacrifício e patriotismo. Surgiram personagens como o Capitão América, que apareceu em 1941 já enfrentando Hitler e o vilão Caveira Vermelha, e o perigo amarelo, representado pelos vilões asiáticos, retornava com o Japão, aliado do Eixo.[18]
Essa tendência de usar os super-heróis como símbolos das tensões políticas e da luta entre o bem e o mal se repetiria na Guerra Fria, adaptando-se a novos "inimigos" e reafirmando constantemente ideais de liberdade e justiça em tempos de conflito global. O perigo amarelo, agora, era simbolizado por vilões como os asiáticos comunistas,[19] incluindo chineses, norte-coreanos e vietcongues, refletindo o clima de medo e desconfiança da época.
Supervilões notáveis
[editar | editar código fonte]O Coringa, Lex Luthor, Doutor Destino, Magneto, Sinestro, Brainiac, Caveira Vermelha, Adão Negro, Duende Verde, Loki, Thanos, Venom, Exterminador, Ultron, Professor Zoom, Ra's al Ghul e Darkseid são alguns notáveis supervilões masculinos dos quadrinhos que foram adaptados para o cinema e a televisão.[20][21] Alguns exemplos notáveis de supervilãs são Mulher-Leopardo, Mulher-gato, Mística, Harley Quinn, Hera Venenosa, Hela e Madame Hidra.[22][23]
Assim como os super-heróis, os supervilões às vezes são membros de equipes, como o Sexteto Sinistro, o Esquadrão Suicida, a Liga da Injustiça, a Irmandade dos Mutantes, a Legião do Mal e os Mestres do Terror.
O arqui-inimigo de James Bond, Ernst Stavro Blofeld (conhecido por frequentemente aparecer sentado em uma poltrona enquanto acariciava seu gato e muitas vezes deixando seu rosto invisível para o espectador) tornou-se influente para os tropos de supervilões no cinema popular, incluindo paródias como Dr. Garra da série animada Inspector Gadget, Dr. Evil e Mr. Bigglesworth, da série de filmes Austin Powers, ou Dr. Blowhole da série animada de TV The Penguins of Madagascar.
Ver também
[editar | editar código fonte]Referências
- ↑ Stauffer, Derek (24 de abril de 2018). «20 Superpowers Even Supervillains Keep Forgetting They Have». ScreenRant (em inglês). Consultado em 28 de abril de 2025
- ↑ Yuge, Claudio (4 de março de 2024). «Vilão do Batman finge insanidade para disfarçar seu grande intelecto». Canaltech. Consultado em 26 de abril de 2025
- ↑ «Marvel revela que um vilão é mais inteligente que Tony Stark - Observatório do Cinema». 21 de fevereiro de 2022. Consultado em 26 de abril de 2025
- ↑ «COMICON.com Panels | Comic Book, Graphic Novel and Cartooning Discussions - Forums powered by UBB.threads™». web.archive.org. 18 de fevereiro de 2012. Consultado em 1 de junho de 2021
- ↑ Redação (8 de setembro de 2023). «Conheça a identidade secreta dos Super-Heróis». MJornal - Revista Online. Consultado em 26 de abril de 2025
- ↑ a b «O Rei do Crime não morreu no MCU? Relembre a história do personagem nas séries da Marvel». www.tecmundo.com.br. 10 de março de 2025. Consultado em 26 de abril de 2025
- ↑ «John Devil and the World of Paul Feval – Black Gate» (em inglês). 6 de maio de 2011. Consultado em 26 de abril de 2025
- ↑ «A (Black) Gat in the Hand: Frank Schildiner on 'The Bad Guys of Pulp' – Black Gate» (em inglês). 28 de outubro de 2019. Consultado em 26 de abril de 2025
- ↑ Gaycken, Oliver (1 de maio de 2015). Devices of Curiosity: Early Cinema and Popular Science (em inglês). [S.l.]: Oxford University Press. Consultado em 26 de abril de 2025
- ↑ AC (23 de dezembro de 2016). «PERSONAGENS DO ROMANCE POLICIAL NO CINEMA E NA TV – III | Histórias de Cinema». Consultado em 26 de abril de 2025
- ↑ AC (24 de novembro de 2024). «FANTÔMAS | Histórias de Cinema». Consultado em 26 de abril de 2025
- ↑ Bah, Aisha (2018). «Cultural Transgression and Subversion: The Abject Slasher Subgenre». The Mall. 2 (1): 72–83. Consultado em 19 de abril de 2021
- ↑ «Blogging Marvel's Master of Kung Fu, Part One – Black Gate» (em inglês). Consultado em 15 de abril de 2022
- ↑ Fu Manchu in Comics
- ↑ Peter X. Feng, Screening Asian Americans, Rutgers University Press, 2002, p. 59.
- ↑ HCA Comics and Comic Art Auction Catalog #7021, Dallas, TX. [S.l.]: Heritage Auctions, Inc. 2010. 43 páginas. 9781599674582
- ↑ Gerard Jones. Homens do Amanhã - geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis. [S.l.]: Conrad Editora, 2006. 85-7616-160-5
- ↑ «O perigo amarelo nas histórias em quadrinhos: Capitão América e discurso antinipônico nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial -». Funarte Digital. 10 de junho de 2024. Consultado em 26 de abril de 2025
- ↑ Newby, Richard (18 de maio de 2019). «How Iron Man's Chief Villain Could Return». The Hollywood Reporter (em inglês). Consultado em 26 de abril de 2025
- ↑ metrowebukmetro (18 de junho de 2008). «The Joker tops supervillain poll». Metro (em inglês). Consultado em 1 de junho de 2021
- ↑ Albert, Aaron Albert Aaron; Of, A. Collector; Books, An Expert on Comic; Studied, Has; taught; Albert, written about the comic book genre for more than 20 years our editorial process Aaron. «Are They Evil Personified? Top 10 Comic Book Super Villians». LiveAbout (em inglês). Consultado em 1 de junho de 2021
- ↑ May 2021, George Marston 28. «Best female supervillains of all time». Newsarama (em inglês). Consultado em 1 de junho de 2021
- ↑ «Maleficent and 16 Other Famous Queens of Mean». Time (em inglês). Consultado em 1 de junho de 2021