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Originalmente chamada Real Fundiçam da Artelharia da Comarca de Thomar, ou como ficaram conhecidas mais tarde Reais Ferrarias da Foz de Alge, também referidas como Ferrarias de Tomar e Figueiró ou Fábricas Reais da Fundição de Artilharia da Comarca de Thomar, foram um dos mais importantes complexos industriais-militares do Império Português.[1][2][3] Localizadas na margem da Ribeira de Alge, perto da sua confluência com o rio Zêzere, no atual concelho de Figueiró dos Vinhos, operaram de forma intermitente desde meados do século XVII até ao início do século XX.[4][5] A sua função primordial era a fundição de artilharia de ferro e outros artefactos metálicos, como alfaias agrícolas, desempenhando um papel crucial na autonomia militar e no desenvolvimento tecnológico de Portugal.[6][7][8]
A escolha da sua localização foi estratégica, motivada pela abundância de matas, que forneciam o carvão vegetal essencial para os fornos, e pela proximidade a jazidas de minério de ferro na região.[6][9] A história das ferrarias é um microcosmo das ambições, contradições e desafios da política industrial portuguesa ao longo de três séculos.
História
[editar | editar código fonte]Período | Evento-Chave | Figuras Associadas | Contexto Político/Económico |
---|---|---|---|
1654–1655 | Instituição da Superintendência e concessão do primeiro alvará[9][10] | D. João IV, Francisco e Pedro Dufour | Guerra da Restauração; necessidade de autonomia bélica.[7] |
c. 1740s–1750s | Apogeu científico e técnico sob gestão iluminista[8] | Bento de Moura Portugal, FRS, D. João V | Iluminismo; aplicação da ciência à indústria; conflitos com a Inquisição.[11] |
1759–1761 | Encerramento das ferrarias por ordem do Marquês de Pombal[10][12] | Marquês de Pombal | Política de fomento industrial em Angola; centralização do poder.[7][13] |
1801 | Carta Régia ordena a reativação e modernização[10] | D. Maria I, D. João VI, José Bonifácio de Andrada e Silva | Reação anti-pombalina ("Viradeira"); consciência do atraso tecnológico.[7] |
1807–1809 | Interrupção dos trabalhos de modernização[10] | José Bonifácio de Andrada e Silva | Invasões Francesas e subsequente instabilidade política.[10] |
Início do séc. XX | Encerramento definitivo[10][14] | N/A | Obsolescência tecnológica e logística face à Revolução Industrial.[15] |
Fase I: Fundação e Consolidação no Século XVII (1655–c. 1700)
[editar | editar código fonte]A criação das ferrarias foi uma consequência direta da Guerra da Restauração (1640-1668). Após sessenta anos de União Ibérica, Portugal enfrentava uma grave vulnerabilidade militar, dependendo da importação de armamento.[9][7] Em resposta, o governo de D. João IV instituiu, em 18 de Outubro de 1654, a Superintendência das Ferrarias de Tomar e Figueiró, com o objetivo de criar uma capacidade industrial doméstica para a produção de canhões e munições.[6][9][7]
O primeiro alvará para a construção da fábrica foi concedido em 1655.[10][7] Para superar a carência de conhecimento metalúrgico, a Coroa recrutou mestres estrangeiros, tendo a administração inicial sido confiada aos peritos franceses Francisco Dufour e, mais tarde, ao seu filho, Pedro Dufour.[7][16] A sua liderança foi fundamental para o arranque tecnológico da produção, estabelecendo um precedente de importação de know-how técnico.[17][18]
Fase II: Apogeu, Ciência e Iluminismo no Século XVIII (c. 1700–1759)
[editar | editar código fonte]No auge do Iluminismo em Portugal, a gestão das ferrarias foi entregue a uma das figuras mais proeminentes da aristocracia cientifica europeia: o engenheiro Bento de Moura Portugal, FRS (1702-1766). Cientista de renome internacional, eleito membro da Royal Society de Londres em 1741, foi nomeado para o cargo de "Superintendente e Conservador das fabricas reais da fundiçam da artelharia da Comarca de Thomar".[19][20][8] A sua nomeação, sob o patrocínio de D. João V, refletia uma política de Estado que visava aplicar o conhecimento científico e a engenharia moderna à produção industrial do Reino.[21][8]
Sob a sua superintendência, a produção diversificou-se, incluindo alfaias agrícolas além da artilharia.[8] Contudo, este período de progresso foi marcado por conflitos. Entre 1745 e 1748, o Superintendente de Sua Majestade Bento de Moura Portugal, FRS, enfrentou um processo no Tribunal do Santo Ofício, acusado de "proposições heréticas e escandalosas", revelando o choque entre a inovação e as forças conservadoras.[19][22][23]
Fase III: O Encerramento Pombalino e o Interregno (1759–1801)
[editar | editar código fonte]Entre 1759 e 1761, por ordem de Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, as ferrarias foram encerradas.[9][10][14] A justificação oficial apontava para a "má condução das lenhas", mas a análise histórica revela uma razão estratégica mais complexa do regime pombalino.[7] O Marquês de Pombal planeava criar grandes fundições em Angola e, para tal, necessitava de técnicos qualificados.[7][24] A solução foi transferir "à força" os mestres e operários de Figueiró dos Vinhos para Angola, esvaziando a fábrica metropolitana da sua competência técnica.[7]
Este período coincidiu com a intensificação da perseguição política. A 9 de julho de 1760, o seu Superintendente Bento de Moura Portugal, FRS, foi preso no honroso e cruel Forte da Junqueira, em Lisboa, sob a acusação de "lesar o erário público" e de "envolvimento na conspiração dos Távora".[21][8] Morreu no cárcere em janeiro de 1766 sem que nenhuma das acusações fosse provada ou sequer julgada, um fim trágico que é visto por muitos historiadores como o momento em que Portugal perdeu a oportunidade de protagonizar uma revolução científica e industrial no século XVIII.[19][8]
Fase IV: A Reativação e os Desafios do Século XIX (1801–c. 1840)
[editar | editar código fonte]O renascimento das ferrarias foi decretado pela Carta Régia de 18 de maio de 1801, emitida pelo Príncipe Regente D. João VI.[10][14] Esta decisão inseriu-se no movimento político conhecido como "Viradeira", que procurou reverter muitas das medidas do anterior regime.[7] Para liderar a reativação, foi nomeado Intendente Geral das Minas e Metais do Reino o cientista luso-brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838).[10][14][25]
José Bonifácio constatou o estado obsoleto da tecnologia e, para modernizar a fábrica, contratou os peritos prussianos Barão de Eschwege e Frederick Varnhagen.[7][26][27] A reconstrução iniciou-se em 1802, mas o projeto foi abruptamente interrompido pelas Invasões Francesas (1807-1809).[10][14] Mais tarde, durante as Guerras Liberais (1828-1834), as infraestruturas foram reativadas de forma improvisada para fabricar armas para o exército Miguelista.[10]
Fase V: Declínio Final e Legado (c. 1840–início do séc. XX)
[editar | editar código fonte]Apesar dos esforços de reativação, as ferrarias nunca recuperaram a sua proeminência. Um relatório de 1837, do Barão de Eschwege, atestava o bom nível técnico da fundição, mas a sua viabilidade estava comprometida.[10] As minas e a fundição continuaram a operar de forma intermitente até ao início do século XX, quando foram definitivamente encerradas.[10][14]
O declínio final deveu-se a fatores estruturais ligados à Revolução Industrial. A "distância e dificuldade de escoamento da produção" tornaram o modelo da fábrica obsoleto face aos novos centros industriais, mais bem localizados e tecnologicamente mais avançados.[17]
Hoje, do outrora vital complexo industrial, restam apenas ruínas na Foz de Alge. Estas encontram-se submersas no leito da albufeira da Barragem de Castelo do Bode, ficando visíveis apenas nos anos de seca, como um testemunho do património industrial e militar de Portugal.[7]
Superintendentes e Figuras-Chave
[editar | editar código fonte]Nome | Período de Atividade | Cargo | Contribuições e Contexto |
---|---|---|---|
Francisco e Pedro Dufour | Meados do séc. XVII | Superintendentes | Mestres franceses responsáveis pela fundação e arranque tecnológico inicial durante a Guerra da Restauração.[7][17][18] |
Bento de Moura Portugal, FRS | c. 1740s–1750s | Superintendente e Conservador | Cientista e engenheiro iluminista. Aplicou conhecimento científico à produção. Perseguido pela Inquisição e por Pombal, morrendo na prisão.[21][8] |
Marquês de Pombal | 1759-1761 (como decisor) | Primeiro-Ministro | Ordenou o encerramento da fundição e a transferência dos seus mestres para um projeto industrial em Angola.[7][24] |
José Bonifácio de Andrada e Silva | 1801–c. 1809 | Intendente Geral das Minas e Metais | Cientista luso-brasileiro encarregado da reativação e modernização da fundição. O seu trabalho foi interrompido pelas Invasões Francesas.[10][14][28] |
Barão de Eschwege e Frederick Varnhagen | Início do séc. XIX | Peritos Técnicos | Especialistas prussianos contratados por José Bonifácio para introduzir tecnologia moderna e superar o atraso técnico da fundição.[7][29][30] |
Ver também
[editar | editar código fonte]- Guerra da Restauração
- Bento de Moura Portugal, FRS
- Marquês de Pombal
- José Bonifácio de Andrada e Silva
- Foz de Alge
- Figueiró dos Vinhos
- Tomar
Referências
- ↑ «Registos de correspondência recebida de provisões do Conselho da Fazenda, regimentos e alvarás dos oficiais e privilégios das pessoas moradoras nas Ferrarias de Figueiró dos Vinhos». Arquivo Histórico do Ministério da Economia e do Mar. Consultado em 15 de maio de 2024
- ↑ «As Guerras do Século XVIII». Revista Militar. Consultado em 15 de maio de 2024
- ↑ «Bento de Moura Portugal». Dicionário de História das Ciências e da Tecnologia em Portugal. Consultado em 15 de maio de 2024
- ↑ «Ferrarias Foz de Alge». Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos. Consultado em 15 de maio de 2024
- ↑ «Reais Ferrarias de Figueiró: as ruínas de uma fábrica de armas no leito do Zêzere». Akademicos. 21 de junho de 2022. Consultado em 15 de maio de 2024
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- ↑ «Património Arquitetónico, Arqueológico, Natural e Botânico de Figueiró dos Vinhos» (pdf). Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos. Consultado em 15 de maio de 2024
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- ↑ «Processo de Bento de Moura Portugal». Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Consultado em 15 de maio de 2024
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- ↑ «José Bonifácio de Andrada e Silva». Universidade de Coimbra. Consultado em 15 de maio de 2024
- ↑ «200 anos da fundação da Real Fábrica de Ferro de Ipanema» (pdf). ABM Proceedings. Consultado em 15 de maio de 2024
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