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Nudibranchia

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nudibrânquios
Flabellina iodinea, um nudibrânquio.
Flabellina iodinea, um nudibrânquio.
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Mollusca
Classe: Gastropoda
Ordem: Opisthobranchia
Subordem: Nudibranchia
Blainville, 1814
Infraordens
Lesma do mar Nembrotha kubaryana.
Lesma do mar Diaphorodoris olakhalafi.

Os nudibrânquios constituem uma subordem de moluscos gastrópodes marinhos pertencente à ordem dos opistobrânquios, na qual se encontram, por exemplo, as lesmas-do-mar.[1]

O seu nome advém do latim nudus 'nu' e do grego βράγχια (bránkhia) 'brânquia' por possuirem brânquias desprotegidas. Sua variedade é enorme e chega a atingir 3000 espécies diferentes. Uma característica destes animais é a riqueza da paleta de cores que cobre o seu corpo e que lhes permite uma camuflagem eficaz nos recifes de coral que constituem o seu habitat.

Algumas espécies comem anêmonas e aproveitam os seus arpões urticantes integralmente transferindo-os funcionais para o seu próprio corpo. O mais interessante é que algumas espécies, por não conseguirem nadar com muita velocidade para fugir de predadores, secretam ácido sulfúrico para se protegerem.

Visão geral ecológica

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Os nudibrânquios são moluscos marinhos do grupo dos gastrópodes que se destacam por sua grande diversidade de formas, cores vibrantes e adaptações ecológicas. Uma de suas principais características é a perda da concha externa, comum a outros moluscos, o que os levou a desenvolver uma variedade de mecanismos alternativos de defesa, como o sequestro de toxinas das presas e colorações de advertência (aposematismo). [2]

Essas mudanças morfológicas permitiram que os nudibrânquios explorassem diversos ambientes marinhos, desde fundos arenosos e recifes até áreas rochosas e cobertas por algas marinhas. A maioria das espécies são bentônicas, vivendo sobre o substrato e deslocando-se lentamente com o auxílio de um pé muscular.

Nudibrânquios ocorrem em mares de todo o mundo, desde o Ártico, passando por regiões temperadas e tropicais, até o Oceano Antártico ao redor da Antártida. No entanto, são encontrados principalmente no Sudeste Asiático. São quase totalmente restritos à água salgada, embora se saiba que algumas espécies habitam salinidades mais baixas em água salobra.[3][4]

Todos os nudibrânquios são hermafroditas simultâneos, ou seja, possuem tanto órgãos reprodutivos masculinos quanto femininos. A maioria realiza apenas um evento reprodutivo ao longo da vida, seguido pela morte — a chamada estratégia semelpara. [2]

Com base no tempo de vida após a fase larval, podem ser agrupados em três tipos ecológicos principais:

  • Espécies subanuais: vivem poucos meses e produzem várias gerações por ano. São geralmente pequenas, de coloração críptica, e apresentam populações instáveis. [2]
  • Espécies anuais: completam seu ciclo de vida em cerca de um ano. Tendem a ter cores mais vibrantes e se alimentar de presas com populações mais estáveis, como esponjas e tunicados. [2]
  • Espécies bianuais: vivem até dois anos antes da reprodução, mas não apresentam diferenças morfológicas marcantes em relação às espécies anuais. [2]

Movimento e navegação

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Nudibrânquios não realizam migrações em larga escala; [2] [5] a dispersão das espécies ocorre principalmente por meio de suas larvas pelágicas, que se espalham com as correntes marinhas. [5] Os adultos, por sua vez, se deslocam lentamente sobre o substrato usando o pé muscular, localizado na parte inferior do corpo. [6] Algumas espécies também conseguem nadar curtas distâncias através de movimentos ondulatórios, embora isso seja incomum. [7]

Esses animais utilizam estruturas sensoriais para navegar e interagir com o ambiente. Os rinóforos, projeções localizadas na cabeça, funcionam como órgãos quimiossensoriais, detectando substâncias químicas na água. Isso permite que encontrem alimento e parceiros. [8] Também usam tentáculos orais para perceber o ambiente ao redor, combinando estímulos táteis e químicos. [9]

Durante a reprodução, algumas espécies demonstram comportamentos de agregação. Em Onchidoris bilamellata, por exemplo, foi observado um deslocamento vertical ao longo da estação, possivelmente relacionado à maturação sexual. Além disso, o seguimento de trilhas de muco deixadas por outros indivíduos pode facilitar o encontro entre parceiros, um comportamento importante para hermafroditas que necessitam de cópula. [2]

Estudos de campo com Tritonia diomedea também revelaram que a espécie ajusta sua direção de movimento em resposta ao fluxo de água: desloca-se contra a corrente para encontrar parceiros e alimento, e a favor da corrente para fugir de predadores. Tais comportamentos são mediados por múltiplos estímulos sensoriais e mostram como o ambiente influencia as estratégias de navegação desses animais. [10]

Relações interespecíficas

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Predação, especialização alimentar e sequestro de defesas

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Nudibrânquios são predadores especializados classificados em quatro grandes categorias: esponjófagos (consumidores especializados de esponjas, briozófagos (consumidores especializados de briozoários), hidrófagos (consumidores especializados de hidrozoários) e um grupo “miscellaneous” que inclui consumidores de cnidários, tunicados, ovos de peixes e até de outros nudibrânquios. [2]

O comportamento alimentar de nudibrânquios como Tritonia diomedea e T. hombergi foi bem documentado: eles começam com movimentos exploratórios (balanço da cabeça e do véu oral), seguidos pela extrusão da massa bucal, mordidas repetidas para cortar partes da presa, e ingestão coordenada pela rádula, em três fases distintas (separação dos lobos, retração e transferência ao esôfago). [2] [11]

A maioria dos nudibrânquios não produz suas próprias toxinas, na verdade, ao consumirem cnidários, nudibrânquios do grupo aeolídeo — como Aeolidia, Berghia e Spurilla, por exemplo— sequestram nematocistos intactos dos tecidos da presa, que não são ativados nem destruídos pelas enzimas digestivas do nudibrânquio, graças à presença de muco e outras substâncias protetoras que o animal produz para evitar a descarga acidental dessas organelas urticantes dentro de seu próprio corpo. Após resistirem à digestão, os nematocistos são seletivamente reconhecidos por células especializadas, que os englobam e transportam por via intracelular até os cnidosacos — estruturas localizadas na extremidade distal dos cerata —, armazenando-os para defesa ativa, processo chamado cleptocnidia [12] [13]. Esponjófagos, por sua vez, acumulam toxinas ou metabólitos secundários das esponjas, por exemplo, Notodoris citrina retém imidazóis da esponja Leucetta, enquanto Phyllidia pustulosa acumula sesquiterpenos da esponja Acanthella [2].

Essas adaptações químicas permitem que, mesmo sem estruturas físicas de ataque, os nudibrânquios se destaquem em sua defesa contra predadores.

Defesa passiva e advertência visual

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A coloração vibrante de várias espécies serve como advertência visual (aposematismo), sinalizando a presença de defesas químicas — frequentemente considerada uma combinação eficaz para desencorajar predadores [14].

Mutualismo e simbiose fotossintética

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Espécies como Pteraeolidia ianthina mantêm simbiontes fotossintetizantes (zooxantelas) em seus cerata após consumir hidróforos, aproveitando nutrientes gerados durante a fotossíntese [2]. Além disso, Rostanga alisae apresenta múltiplas associações bacterianas simbióticas que podem contribuir com sua ecologia [15].

Espécies brasileiras

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Diversas espécies de nudibrânquios ocorrem na costa brasileira, com interações ecológicas que refletem sua diversidade de estratégias alimentares e de defesa.

Spurilla braziliana é uma espécie comum em zonas arrecifais do Brasil. Alimenta-se de cnidários e é capaz de sequestrar seus nematocistos, armazenando-os nos cerata para utilizar como mecanismo de defesa contra predadores — um exemplo clássico de sequestro funcional de estruturas urticantes. [16]

Knoutsodonta brasiliensis se alimenta do briozoário Parasmittina protecta, sobre o qual também deposita seus ovos. Essa interação mostra uma forte relação trófica e reprodutiva com substratos específicos, sendo um exemplo de especialização ecológica associada ao grupo dos briozófagos. [17]

Chromodoris paulomarcioi, pertencente à família Chromodorididae, foi descrita em associação com esponjas marinhas — fontes potenciais de compostos químicos tóxicos que esses nudibrânquios acumulam em seus tecidos como estratégia de defesa. Esse comportamento reforça a importância das relações tróficas na aquisição de defesas secundárias. [18]

Berghia rissodominguezi, registrada em Santa Catarina, é uma espécie que se alimenta de anêmonas-do-mar. Um aspecto comportamental notável é o registro de predação social, em que indivíduos se agrupam para consumir a mesma presa, o que é incomum entre moluscos e nudibrânquios, e representa um comportamento colaborativo raro nesse grupo. [19]

Referências

  1. «Incríveis lesmas marinhas são animais mais coloridos do mar». Consultado em 25 de janeiro de 2011. Arquivado do original em 2 de outubro de 2009 
  2. a b c d e f g h i j k Todd, C.D. (1981). The ecology of nudibranch molluscs. Aberdeen: Aberdeen University Press. p. 141–234 
  3. Ekimova, Irina; Korshunova, Tatiana; Schepetov, Dmitry; Neretina, Tatiana; Sanamyan, Nadezhda; Martynov, Alexander (abril de 2015). «Integrative systematics of northern and Arctic nudibranchs of the genus Dendronotus (Mollusca, Gastropoda), with descriptions of three new species: Integrative taxonomy: genus Dendronotus». Zoological Journal of the Linnean Society (em inglês) (4): 841–886. doi:10.1111/zoj.12214. Consultado em 23 de junho de 2025 
  4. Korshunova, Tatiana; Lundin, Kennet; Malmberg, Klas; Picton, Bernard; Martynov, Alexander (14 de março de 2018). Schubert, Michael, ed. «First true brackish-water nudibranch mollusc provides new insights for phylogeny and biogeography and reveals paedomorphosis-driven evolution». PLOS ONE (em inglês) (3): e0192177. ISSN 1932-6203. doi:10.1371/journal.pone.0192177. Consultado em 23 de junho de 2025 
  5. a b Miller, M.C. (1962). «Annual Cycles of Some Manx Nudibranchs, with a Discussion of the Problem of Migration». Journal of Animal Ecology. 31 (3): 545–569. Consultado em 30 de maio de 2025 
  6. Fernando, Malik (2005). «Nudibranchs: Snails without homes». Loris. 22 (3): 4–12 
  7. «Underwater Wonders: The Vibrant World of Nudibranchs». Explore Hood Canal. 12 de agosto de 2024. Consultado em 30 de maio de 2025 
  8. «Rhinophore». Wikipédia, a enciclopédia livre. 6 de abril de 2024. Consultado em 30 de maio de 2025 
  9. «Door #16: Basic anatomy of the sea slug». The Invertebrate Collections. 16 de dezembro de 2018. Consultado em 30 de maio de 2025 
  10. Wyeth, R. C. (2006). «Field behavior of the nudibranch mollusc Tritonia diomedea». Biological Bulletin. 210: 81–96 
  11. "Bulloch", "Dorsett", "A. G. M.", "D. A." (1 de abril de 1979). «The Integration of the Patterned Output of Buccal Motoneurones During Feeding in Tritonia Hombergi». Journal of Experimental Biology. 79 (1): 23-40. Consultado em 20 de junho de 2025 
  12. Lambert, W J (1991). «Coexistence of Hydroid Eating Nudibranchs: Do Feeding Biology and Habitat Use Matter?». PubMed. The Biological bulletin. 181 (2): 248-260. Consultado em 20 de junho de 2025 
  13. Lambert, Walter. J (1990). «Population ecology and feeding biology of nudibranchs in colonies of the hydroid Obelia geniculata». Doctoral Dissertations. Consultado em 20 de junho de 2025 
  14. "Winters", "Chan", "White", "van der Berg", "Garson", "Cheney"., "AE", "W", "AM", "CP", "MJ", "KL". (2022). «Weapons or deterrents? Nudibranch molluscs use distinct ecological modes of chemical defence against predators». Epub. The journal of animal ecology. 91 (4): 831-844. Consultado em 20 de junho de 2025 
  15. Zhukova, Natalia V. (7 de janeiro de 2022). «Multiple bacterial partners in symbiosis with the nudibranch mollusk Rostanga alisae». Scientific Reports (12). Consultado em 20 de junho de 2025 
  16. DOMÍNGUEZ, MARTA; TRONCOSO, JESÚS S.; GARCÍA, FRANCISCO J. (junho de 2008). «The family Aeolidiidae Gray, 1827 (Gastropoda Opisthobranchia) from Brazil, with a description of a new species belonging to the genus Berghia Trinchese, 1877». Zoological Journal of the Linnean Society (2): 349–368. ISSN 0024-4082. doi:10.1111/j.1096-3642.2008.00390.x. Consultado em 23 de junho de 2025 
  17. Alvim, Juliana; Padula, Vinicius; Pimenta, Alexandre Dias (7 de fevereiro de 2011). «First record of the genusOnchidoris(Gastropoda: Nudibranchia: Onchidorididae) from the South Atlantic Ocean, with the description of a new species from Brazil». Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom (2): 505–511. ISSN 0025-3154. doi:10.1017/s002531541000202x. Consultado em 23 de junho de 2025 
  18. Domínguez, Marta; García, Francisco J.; Troncoso, Jesús S. (30 de dezembro de 2006). «Some aspects of the family Chromodorididae (Opisthobranchia: Nudibranchia) from Brazil, with description of a new species». Scientia Marina (4): 621–634. ISSN 1886-8134. doi:10.3989/scimar.2006.70n4621. Consultado em 20 de junho de 2025 
  19. Padula, Vinicius; Bahia, Juliana; Vargas, Camila; Lindner, Alberto (1 de dezembro de 2011). «Mollusca, Nudibranchia: new records and southward range extensions in Santa Catarina, southern Brazil». Check List (6). 806 páginas. ISSN 1809-127X. doi:10.15560/11037. Consultado em 20 de junho de 2025 

Ligações externas

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