
Muro da Mauá é uma estrutura de proteção contra enchentes localizado entre o Cais Mauá e a Avenida Mauá, no Centro Histórico de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.[1] O muro de concreto armado tem 3 metros de altura e exatos 2 647 metros de comprimento. Conta com uma fundação em cortina contínua, também de três metros de profundidade, para evitar a percolação subterrânea. O muro foi finalizado em 1974 feito em proteção contra as cheias do Guaíba. Como alternativa ao muro permanente, foi proposto um sistema de proteção modular removível, sobre arquibancadas.[2]
História
[editar | editar código fonte]O Muro da Mauá, é uma das maiores obras de engenharia urbana da história de Porto Alegre. Ele foi construído para proteger o centro histórico da cidade das recorrentes inundações causadas pela elevação do nível do lago Guaíba, especialmente após a trágica enchente de 1941.[3] Após discussões e estudos técnicos, decidiu-se construir não apenas diques, mas também um muro de concreto permanente ao longo do Cais Mauá e da Avenida Mauá, em local onde não era possível elevar o terreno por se tratar de área densamente urbanizada e com intensa atividade portuária.[4]
Durante o século XX, Porto Alegre enfrentou enchentes severas, especialmente em 1928, 1936 e, de forma catastrófica, em 1941, quando o Guaíba chegou a 4,76 metros, alagando todo o centro da cidade. A obra foi formalizada em 28 de abril de 1973, por meio de convênio entre o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), o Estado do Rio Grande do Sul e a Prefeitura de Porto Alegre, no governo do engenheiro e prefeito Telmo Thompson Flores. O muro foi executado entre 1971 e 1974, com sua conclusão oficial em 1974.[5][3]
Críticas
[editar | editar código fonte]Durante o período de construção, Porto Alegre vivia um momento de forte centralização política (governos militares), com investimentos em infraestrutura pesada. O projeto do sistema de proteção contra enchentes incluía casas de bombas, diques e o famoso muro ao longo do Cais Mauá. Embora a obra fosse considerada tecnicamente eficaz, ela causou rejeição pública e intelectual quase imediata. Desde sua construção, o muro tem sido alvo de críticas por sua aparência e por criar uma barreira física e visual entre o centro histórico e a orla do Guaíba, prejudicando projetos de revitalização da região do cais.[4]
O sistema foi projetado com base na cheia de 1941, pensando para eventos até 6 m, mas não estava preparado para a crescente frequência de eventos extremos causados por mudanças climáticas. Segundo especialistas, o cenário recente indica que cheias intensas devem se repetir no século XXI.[6] A ausência de um plano emergencial eficaz para caso de falhas estruturais foi criticada por especialistas, reforçando que decisões de risco devem ser planejadas antecipadamente.[7]
Um relatório de 2014, encomendado à Simon Engenharia e entregue ao DEP e à Prefeitura, já apontava fissuras no muro, comportas com vedação inadequada e casas de bomba mal conservadas. Esses problemas se materializaram na enchente de 2024, com vazamentos generalizados e apenas 4 das 23 casas de bomba operando no momento crítico.[8] Especialistas como os professores Walter Collischonn (UFRGS) e lígia Bergamaschi Botta afirmam que o sistema falhou por anos de descuido: comportas deformadas, parafusos faltando, falta de energia nas bombas — tudo somado a uma estrutura que não tinha suporte técnico adequado para a enchente de 2024.[9]
Histórico do uso de comportas
[editar | editar código fonte]- Em 1983, as comportas foram pontualmente fechadas pela primeira vez desde a sua construção. A operação levou cerca de seis a sete horas e ocorreu em conjunto com o prefeito João Antônio Dib devido à grande quantidade de chuva e risco iminente de inundação da cidade. O sistema não chegou a ser plenamente utilizado, e mostrou a dificuldade de utilização em caso de emergência.[5]
- Em 12 de outubro de 2015, todas as 14 comportas foram fechadas preventivamente pelo DEP, durante uma elevação histórica do nível do Guaíba (atingindo cerca de 2,92 m), marcando a primeira vez que o sistema foi acionado totalmente desde sua construção. Durante o evento, embora algumas zonas da cidade tenham ficado inundadas, a utilização do sistema foi providencial para evitar danos maiores a região central de porto alegre.[10]
- Dos dias 2 a 5 de maio de 2024, com o Guaíba em elevação acelerada, várias comportas foram fechadas preventivamente pela Prefeitura e pelo DMAE. Segundo nota oficial da Prefeitura de Porto Alegre, sete comportas foram fechadas até 5 de maio, incluindo as situadas nas avenidas Mauá, Sepúlveda e Castelo Branco.[11]
- Entre os dias 5 e 10 de maio de 2024, foi providenciado o fechamento de todas comportas de maneira emergencial, entretanto algumas delas sofreram danos com o tempo e não foram possíveis de serem completamente fechadas ou vedadas. Sendo necessária a utilização de sacos de areia, lonas e placas de madeira para tentar evitar a invasão da água para a cidade. Estas falhas graves acabaram por não permitir a contenção da água que conseguiu invadir a zona central e zona norte da cidade.[12][13]
Sistema de proteção contra cheias
[editar | editar código fonte]O muro é parte de um sistema de proteção contra cheias constituído de 68 km de diques, externos e internos, 14 comportas de metal e 19 casas de bombas.[14] O muro representa apenas 4% da extensão dos diques de proteção do sistema e localiza-se ao longo do Canal dos Navegantes, parte do Delta do Jacuí situando-se próximo de Canoas. O sistema foi construído a fim de evitar catástrofes semelhantes à enchente de 1941. As comportas já foram fechadas em diversos momentos após sua construção.[15][16]
Além do muro, o sistema conta com canais de macro-drenagem (como os arroios Dilúvio e Cavalhada) e diques montados sob as avenidas Beira-Rio (ao sul) e Presidente Castello Branco (ao norte).[17][18] As casas de bombas (com um total de 83 bombas com capacidade de bombear 159 mil litros por segundo) estão localizadas em pontos específicos da cidade para levar as águas para o Rio Jacuí e o Rio Gravataí.[18]
Número de comporta | Localização | Tipo atual | Situação atual | Ref. |
---|---|---|---|---|
1 | Usina do Gasômetro / Orla do Guaíba | Móvel | Reformada, aberta | [19] |
2 | Caís do Porto Mauá | Móvel | Reformada, aberta | |
3 | Av. Mauá x Rua Padre Tomé | Fixa | Fechada em concreto, em 2025 | |
4 | Av. Mauá x Rua Sepúlveda | Móvel | Reformada, aberta | |
5 | Av. Mauá | Fixa | Fechada em concreto, em 2025 | |
6 | Av. Mauá (acesso ao cais) | Móvel | Reformada, aberta | |
7 | Av. Mauá | Fixa | Fechada em concreto, em 2025 | |
8,9 e 10 | Av. Castelo Branco | Fixa | Em processo de fechamento definitivo | |
11 | Av. São Pedro | Móvel | Em processo de substituição | |
12 | Av. Cairú | Móvel | Em processo de substituição | |
13 | Av. Castelo Branco | Fixa | Em processo de fechamento definitivo | |
14 | Av. Castelo Branco x Rua Voluntários da Pátria | Móvel | Em processo de substituição |
Galeria
[editar | editar código fonte]Referências
- ↑ Clayton (4 de maio de 2024). «Chuva no RS: Guaíba chega a 4,88 metros e atinge o maior nível de sua história». Nitro News Brasil. Consultado em 4 de maio de 2024
- ↑ [1]
- ↑ a b Alegre, Arquivo Histórico De Porto (18 de jun. de 2015). «FONTES DE PESQUISA SOBRE O MURO DA MAUÁ». AHPAMV. Consultado em 26 de julho de 2025
- ↑ a b Meneghetti, Marcus (22 de agosto de 2023). «Como a enchente de 1941 gerou o Muro da Mauá». Jornal do Comércio. Consultado em 26 de julho de 2025
- ↑ a b Thiel, Rodrigo (25 de setembro de 2023). «Entenda como funciona o sistema de diques de Porto Alegre». Correio do Povo. Consultado em 26 de julho de 2025
- ↑ Oliveira, Danielly (24 de novembro de 2023). «Sistema contra enchentes em Porto Alegre não foi projetado para eventos extremos». ((o))eco. Consultado em 26 de julho de 2025
- ↑ «Sem proteção, teria sido pior: como funciona sistema contra cheias no RS». UOL. Consultado em 26 de julho de 2025
- ↑ Neto, Alberi (2 de julho de 2024). «Há 10 anos, relatório apontou problemas em comportas, muro e casas de bombas da Avenida Mauá | DG». Diário Gaúcho. Consultado em 26 de julho de 2025
- ↑ «Como funciona a estrutura do Muro da Mauá em Porto Alegre?». Engenharia 360 - Engenharia para todos. 18 de maio de 2024. Consultado em 26 de julho de 2025
- ↑ Conteúdos, Central de (12 de outubro de 2015). «Pela primeira vez, todas as comportas do Cais Mauá são fechadas». Agora RS. Consultado em 26 de julho de 2025
- ↑ «Dmae reabre cinco comportas do Cais Mauá | Prefeitura de Porto Alegre». www.prefeitura.poa.br. Consultado em 26 de julho de 2025
- ↑ «Porto Alegre inicia fechamento de todas as comportas contra cheias». G1. 29 de junho de 2025. Consultado em 26 de julho de 2025
- ↑ «Risco de queda do muro da Mauá é baixo, mas resistência das comportas é incerta, dizem especialistas». GZH. 3 de maio de 2024. Consultado em 26 de julho de 2025
- ↑ «Muro da Mauá». Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Consultado em 7 de maio de 2019
- ↑ «Guaíba já registra quarta maior cheia desde 1941». GaúchaZH. 21 de outubro de 2016. Consultado em 7 de maio de 2019
- ↑ RS, Do G1 (12 de outubro de 2015). «Guaíba volta a subir e atinge maior nível desde 1941 em Porto Alegre». Rio Grande do Sul. Consultado em 7 de maio de 2019
- ↑ GUIMARAENS, Rafael (2015). Águas do Guaíba. Porto Alegre: Libretos. pp. 216 p.
- ↑ a b «Porto Alegre protegida contra enchentes como a de 1941». Prefeitura de Porto Alegre. Consultado em 7 de maio de 2019
- ↑ «Prefeitura conclui fechamento definitivo das comportas 5 e 7 no Centro Histórico | Prefeitura de Porto Alegre». www.prefeitura.poa.br. Consultado em 26 de julho de 2025
Ligações externas
[editar | editar código fonte]Dados geográficos relacionados a Muro da Mauá no OpenStreetMap