O Caso Ballet Rose (ou Escândalo sexual dos "Ballet Rose"[1]) foi um caso de pedofilia em Portugal que ocorreu nos anos 1960 e envolveu figuras importantes do regime salazarista.
Em Dezembro de 1967 um jornalista britânico revela no Daily Telegraph um hediondo esquema de pedofilia, prostituição e abuso de menores envolvendo altas figuras do Estado Novo[2].
Este escândalo levaria ao afastamento do ministro da Justiça Antunes Varela, que se demite em protesto contra o encobrimento do escândalo de corrupção de menores por parte de Salazar[3].
O nome Ballet Rose deve-se a uma dança que as crianças faziam, à luz de holofotes cor-de-rosa[4].
Escândalo
[editar | editar código fonte]O caso Ballet Rose envolveu a prostituição de crianças de baixa idade (8 a 12 anos[5]), crimes encobertos por um regime político com uma moralidade católica muito forte. Havia pagamentos para "desflorar" crianças (tirar a sua virgindade) a professoras e responsáveis pelas crianças oriundas de meios pobres.
O caso começou no início dos anos 1960. Uma das raparigas de 16 anos, abusada desde os 9, decide denunciar o caso à Polícia Judiciária, acompanhada por uma advogado[6].
Investigação policial
[editar | editar código fonte]O caso foi investigado pela Polícia Judiciária e, posteriormente, pela PIDE. A PJ entrevistou várias vítimas, incluindo uma prostituta e a filha que denunciam a lista de clientes envolvendo figuras políticas importantes.
Assim que Salazar tomou conhecimento do caso, tentou abafá-lo, devido às fortes ligações com pessoas importantes do regime incluídas na investigação[7], nomeadamente o ministro de Estado Oliveira Correia.
A Polícia Judiciária leva o caso a tribunal em 1967 apenas com a acusação de atentado ao pudor, sendo acusados várias mulheres e homens[8]. Apenas três pessoas serão condenadas: uma modista da Avenida de Roma (Lisboa), um administrador bancário (do Banco Espírito Santo & Comercial de Lisboa) e um proprietário hoteleiro[9].
O advogado Joaquim Pires de Lima fez a defesa de uma das vítimas.
Revelação internacional
[editar | editar código fonte]Mário Soares é acusado de revelar ao repórter britânico Barry O'Brien, do Daily Telegraph, informações sobre o caso Ballet Rose. A sua prisão ocorreu no dia seguinte à publicação da reportagem no jornal britânico, sendo enviado primeiro para Caxias e, mais tarde, para São Tomé e Príncipe[10].
Francisco Sousa Tavares e Urbano Tavares Rodrigues tentaram igualmente denunciar o caso, sendo presos por tal.
Envolvidos
[editar | editar código fonte]O escândalo sexual envolveu altas personalidades do regime, nomeadamente ministros do governo de Salazar, militares, grandes empresários ligados à indústria, banca e alta finança, membros da aristocracia ou da Igreja. O secretismo gerado pelo regime em torno dos envolvidos foi tão forte que, até hoje, não é possível descobrir a totalidade dos envolvidos.
Livros e televisão
[editar | editar código fonte]Em 1975 o escritor Amadeu Lopes Sabino escreve, sob o pseudónimo Marta Castro Alves, a obra O processo das virgens – aventuras, venturas e desventuras sexuais em Lisboa nos últimos anos do fascismo[11].
Em 1997 a jornalista Felícia Cabrita publica uma reportagem sobre este caso, e daí nasce o livro Ballet Rose: uma novela (a)moral, escrito com Moita Flores. Quer na série, quer no livro, não se revelam os nomes verdadeiros das vítimas e envolvidos.
Em 1998 é produzida na RTP uma série televisiva, baseada na obra de Felícia Cabrita e Moita Flores e realização de Leonel Vieira. Gerou muita polémica devido às cenas sensíveis, sendo transmitido apenas após a meia-noite.
Bibliografia
[editar | editar código fonte]- O processo das virgens – aventuras, venturas e desventuras sexuais em Lisboa nos últimos anos do fascismo, Marta Castro Alves, Afrodite, 1975
- Ballet Rose: uma novela (a)moral, Francisco Moita Flores, Felicia Cabrita. 1.ª ed. Lisboa: Notícias, 1998. ISBN 972-46-0919-7.
Referências
- ↑ Daniel de Melo (1996). "Ballet Rose" (O escândalo sexual dos) 1.ª ed. [S.l.]: Círculo de Leitores. p. 85. 527 páginas. ISBN 972-42-1404-4
- ↑ Arquivo Nacional da Torre do Tombo. «Notícia do jornal «Daily Telegraph» sobre as consequências políticas do escândalo dos «ballet rose»». Arquivo Nacional da Torre do Tombo
- ↑ Museu do Aljube - Resistência e Liberdade (10 de Dezembro de 2020). «Caso "Ballet Rose"». Museu do Aljube - Resistência e Liberdade. Consultado em 25 de Fevereiro de 2025
- ↑ Francisco Cantanhede (25 de Março de 2018). «Ballet Rose, o caso que pintou de negro a ditadura salazarista». O Setubalense. Consultado em 27 de Fevereiro de 2025
- ↑ Alice Vieira (23 de Julho de 2021). «Crónica de Alice Vieira - Lembram-se dos Ballet Rose?». Jornal de Mafra. Consultado em 25 de Fevereiro de 2025
- ↑ Raquel Machado (2015). Jornalismo de Investigação, Face ao caso WikiLeaks (PDF). [S.l.]: Universidade da Beira Interior. p. 41. 79 páginas
- ↑ Manuel Gama. Da censura à autocensura no Estado Novo (PDF). [S.l.]: Universidade do Minho. p. 4. 10 páginas
- ↑ Nuno Ramos de Almeida, Jornal SOL (23 de Dezembro de 2017). «Moita Flores. "Para exibir a série tivemos que esperar a morte de um sacerdote"». Jornal SOL
- ↑ Daniel de Melo (1996). "Ballet Rose" (O escândalo sexual dos) 1.ª ed. [S.l.]: Círculo de Leitores. p. 85. 527 páginas. ISBN 972-42-1404-4
- ↑ Filipe Luís, Visão Biografia. A Criança que queria derrubar Salazar Dezembro de 2024 ed. [S.l.]: Visão Biografia. p. 24
- ↑ Portugal Memória (7 de Novembro de 2020). «BALLET ROSE (Escândalo do Estado Novo)». Portugal Memória. Consultado em 27 de Fevereiro de 2025