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Autorretrato com colete verde

Autorretrato com colete verde
Autorretrato com colete verde
Autor Eugène Delacroix
Data 1837
Gênero autorretrato
Técnica tinta a óleo, tela
Dimensões 65 centímetro x 54,5 centímetro
Localização Sala 942 do Museu do Louvre

Autorretrato com colete verde (fr. Autoportrait au gilet vert)[1] é uma obra do pintor francês Eugène Delacroix, produzida no segundo quartel do século XIX, provavelmente por volta de 1837. Este óleo sobre tela é um autorretrato no qual o artista se retrata como um busto sobre fundo marrom, com um colete verde aparecendo sob o paletó preto. Legada em 1872, a obra encontra-se no Museu do Louvre, em Paris.

Autorretrato de Delacroix e o Paradigma Romântico

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A prática do autorretrato, especialmente a partir do final do século XVIII, assume um estatuto singular no campo da arte europeia, tornando-se veículo de especulação identitária, introspecção psicológica e dramatização da subjetividade. Com o Romantismo, essa forma expressiva se emancipa da mera função documental ou celebrativa para se converter em um locus privilegiado da crise do sujeito moderno. Neste contexto, o Autoportrait au gilet vert de Eugène Delacroix (c. 1837), atualmente no acervo do Musée du Louvre, impõe-se como manifestação exemplar da sensibilidade romântica e da autorreflexividade artística no século XIX.

O autorretrato deixa de ser simples reflexo mimético e passa a refletir, nas palavras de Jean Starobinski, “a duplicação inquieta do eu diante do espelho, onde a identidade não se encontra confirmada, mas questionada”.[2] No caso de Delacroix, essa inquietação assume forma pictórica, operando-se por meio de uma economia de luz e sombra, de expressividade contida, de tensões cromáticas e de uma gestualidade comedida, que revela mais do que mostra, como um véu lançado sobre a própria presença.

A poética do autorretrato romântico, como enfatiza Angela Rosenthal, é inseparável de um processo de interiorização do olhar: “o artista romântico não apenas se vê, mas se interroga, se narra e se dramatiza”.[3] Assim, a imagem que temos de Delacroix neste retrato não é a de um sujeito transparente, mas de uma subjetividade em tensão, marcada por uma aura de silêncio e introspecção.

Essa lógica introspectiva do Romantismo se ancora também em seus paradigmas filosóficos e poéticos. A ascensão da noção de gênio, cultivada pelo idealismo alemão e pela crítica de arte francesa, legitima o artista como figura solitária, movida por impulsos interiores. Como destaca Friedrich Schlegel: “A verdadeira obra de arte é o autorretrato da alma”.[4] Tal afirmação ecoa na postura de Delacroix, que frequentemente evocava a figura do artista como “ser que arde em fogo interior” (Journal, 18 de outubro de 1847).[5]

Delacroix não se insere nesse paradigma por adesão retórica, mas por um posicionamento estético e existencial profundo. A sua aproximação com o drama, com a paixão e com o culto da expressividade fazem de sua obra, como escreveu Baudelaire, “o altar mais nobre da emoção na arte moderna”.[6] Este autorretrato pode, portanto, ser lido como manifesto pictórico dessa emoção que se retrai no silêncio e que se cifra na cor.

No plano técnico, o retrato se constrói a partir de uma tradição pictórica complexa, que combina lições de Rembrandt e Rubens com uma modernização do gesto e da paleta. O fundo indefinido, as tonalidades amortecidas e o olhar desviado são elementos que conferem à composição uma densidade psicológica e simbólica. Delacroix, como aponta Sébastien Allard, “se autorrepresenta menos como indivíduo do que como tipo espiritual: o artista interiorizado, isolado, em pleno contato com suas forças criadoras”.[7]

Essa postura dialoga com o que Henri Focillon denominou “vida das formas”,[8] ou seja, a convicção de que a forma artística possui dinamismo autônomo e capacidade de significação sensível. Em Delacroix, o autorretrato não ilustra uma ideia: ele a encarna formalmente por meio do jogo plástico entre volume, cor e atmosfera. Como nota Philippe Dagen, “seus autorretratos são cenas interiores onde o rosto é o palco da consciência criadora”.[9]

Assim, o autorretrato de Delacroix ultrapassa o campo da representação para afirmar-se como ato de linguagem pictórica e como dramatização simbólica do artista romântico. Não se trata de se mostrar ao mundo, mas de construir, a cada pincelada, o próprio mistério de um sujeito irredutível à aparência. Nesse gesto, Delacroix inscreve sua imagem na tradição da modernidade visual, ao lado de Goya, Ingres e, posteriormente, Courbet.

Gesto, cor e composição no “Autoportrait au gilet vert”

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No Autoportrait au gilet vert, Eugène Delacroix oferece uma lição magistral de pintura autorreflexiva que se inscreve, simultaneamente, na tradição e na ruptura. A obra apresenta-se como uma composição contida em sua gestualidade, mas potente em seu dinamismo interno, revelando aquilo que Jacques Rancière define como "distribuição do sensível" – ou seja, a construção de um regime de visibilidade onde a forma plástica é atravessada por estruturas éticas e políticas de subjetivação.[10]

A pintura exibe o artista com o busto levemente voltado para a esquerda, o rosto parcialmente sombreado, os olhos baixos e os lábios cerrados. O gesto pictórico é disciplinado, mas não frio. O verde do colete, contrastando com o marrom do fundo e com a pele rosada, estabelece uma tensão cromática que remete à paleta dos mestres flamengos, notadamente Rubens, cuja influência Delacroix reivindicava abertamente. Segundo Pierre Rosenberg, “o uso da cor em Delacroix é sempre argumentativo: não serve apenas à beleza da superfície, mas articula uma teia simbólica e psíquica” (De David à Delacroix, 1996, p. 233).[11]

A luminosidade é outro elemento-chave na construção do efeito dramático da imagem. A luz incide lateralmente, acentuando as linhas do maxilar, a ponte do nariz e a testa, enquanto mergulha o lado oposto do rosto em sombra, criando uma atmosfera carregada de ambiguidade. Tal procedimento remonta diretamente à técnica do sfumato leonardesco e à tenebridade barroca, reatualizadas por Delacroix com inconfundível modernidade. Como observou Germain Bazin, “Delacroix foi talvez o único de sua geração a compreender que a sombra pode conter mais verdade expressiva do que a luz”.[12]

Formalmente, a composição é frontal, mas tensionada por diagonais internas: o colarinho branco, a inclinação do ombro direito e o corte oblíquo da gola do colete criam um sistema de linhas que dinamiza a cena, mesmo na sua aparente imobilidade. O fundo monocromático, desprovido de qualquer elemento narrativo, concentra toda a força no rosto e nos tecidos, criando o que Michael Fried chamaria de “absorção do espectador pela presença pictórica”.[13]

Essa absorção é reforçada por um certo fechamento da figura em si mesma – o olhar que não se dirige ao observador, mas parece recolhido em esfera privada –, o que reforça a dimensão psicológica e íntima do retrato. Charles Rosen e Henri Zerner, ao analisarem os retratos românticos franceses, observam que “a contenção do gesto em Delacroix não representa apatia, mas tensão espiritual elevada ao nível da forma”.[14]

Tecnicamente, nota-se o uso de uma pincelada controlada, mas não hiperacabada. As transições entre os tons são suaves, mas não inteiramente fundidas: a textura da superfície deixa entrever o trabalho da mão, o que aproxima esta obra do conceito de “escrita pictórica” formulado por Jean Clay, segundo o qual o quadro “se torna o manuscrito do sujeito”.[15]

A construção do rosto — em especial o sombreado ao redor dos olhos e o modelado das maçãs do rosto — sugere não apenas perícia anatômica, mas uma intenção dramática. Há ali a vontade de retratar uma subjetividade pensante, introvertida, mas consciente de sua própria teatralidade. Como lembrou Lionello Venturi, “Delacroix é um artista para quem o autorretrato não é um espelho, mas uma cena de teatro interior”.[16]

Por fim, o verde do colete – que dá nome à obra – não é um detalhe meramente descritivo, mas um signo cromático carregado. Em termos simbólicos, o verde pode evocar esperança, mas também melancolia, ambiguidade, oscilação entre o mundo e o retiro. Na codificação simbólica romântica, a cor verde aparece frequentemente associada à reflexão interior. Tal nuance reforça a leitura do retrato como espaço da interioridade e da suspensão temporal.[17]

Em suma, o Autoportrait au gilet vert é exemplar da maestria formal de Delacroix, não como mero exercício técnico, mas como expressão plena de uma poética subjetiva. Nele, cada escolha plástica — da paleta à luz, do enquadramento ao tecido — é colocada a serviço de um ethos artístico que confunde, como queria Paul Valéry, “a técnica e a alma”.[18]

Diálogo com a tradição: Delacroix e os mestres do passado

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A prática autorrepresentativa de Eugène Delacroix, sobretudo no Autoportrait au gilet vert, não se constrói como ruptura com o cânone pictórico ocidental, mas sim como uma sofisticada negociação com seus modelos. Ao contrário da imagem romântica do gênio que rejeita o passado em nome de uma inspiração absoluta, Delacroix articula sua identidade pictórica a partir de uma densa constelação de referências visuais, das quais se destaca o legado de mestres como Rubens, Rembrandt e Velázquez, com os quais o artista estabelece um complexo diálogo intertextual.

A construção do autorretrato na tradição ocidental implica, como assinala Ernst van de Wetering, uma tensão entre a verossimilhança física e a representação de um ethos artístico. O retrato do artista torna-se “uma forma de autoposição simbólica no campo da arte”. É precisamente essa dimensão simbólica que Delacroix persegue: seu autorretrato não apenas enuncia uma fisionomia, mas elabora uma poética do artista moderno à luz do passado.[19]

O modelo mais próximo — e mais declarado — é Rembrandt. O holandês do século XVII ofereceu a Delacroix não apenas uma gramática expressiva do autorretrato (a pincelada densa, a luz dramática, o olhar interiorizado), mas também uma ética do artista como ser em constante interrogação. Delacroix, em carta datada de 1847, afirmava: “Rembrandt é o Cristo da pintura. Nele está toda a alma humana” . Essa aproximação é também notada por Jonathan Crary, para quem “a recepção romântica de Rembrandt consistiu na legitimação de uma subjetividade descentrada, cujas sombras e hesitações se convertiam em signos de autenticidade.[20][21]

No Autoportrait au gilet vert, essa herança se manifesta não apenas nos valores cromáticos (os verdes escuros e marrons avermelhados que remetem à paleta flamenga), mas sobretudo na espacialização: o fundo não descritivo remete aos autorretratos tardios de Rembrandt, nos quais o sujeito emerge de um espaço quase metafísico, onde o claro-escuro é mais existencial do que físico.

Mas é Rubens quem fornece a Delacroix a dimensão barroca do gesto pictórico. A monumentalidade do corpo, o movimento contido da cabeça em rotação e, acima de tudo, a sensualidade dramática da luz, remetem aos retratos do mestre de Antuérpia, particularmente o autorretrato com sua esposa Isabella Brant (c. 1609). Como bem observa Pierre Rosenberg, Rubens foi “o pintor que mais influenciou Delacroix nos modos de lidar com o corpo como matéria pictórica, pulsante e conturbada”.[22]

A convivência com a tradição espanhola, por seu turno, aparece na sobriedade melancólica da pose e na materialidade aveludada dos tecidos — traços visíveis em Velázquez. O retrato de Delacroix lembra o famoso Autorretrato do mestre espanhol em As Meninas (1656), onde o artista, embora em cena, parece se retirar, num gesto quase metapictural. A “discrição majestosa” de Velázquez, nas palavras de José Ortega y Gasset, representa “a mais sutil forma de afirmação do artista moderno: a que se oculta na própria obra”.[23]

Ao mobilizar essas referências, Delacroix não realiza um exercício de citação passiva, mas reinterpreta os mestres do passado à luz de sua sensibilidade romântica. Como afirma Jean Galard, “Delacroix não imita a tradição: ele a desafia, como quem dialoga com os mortos em busca de um espelho mais profundo”.[24] A escolha da indumentária no retrato — um colete verde profundo, de corte quase arcaico — também aponta para um deslocamento temporal simbólico, como se Delacroix se inscrevesse num tempo outro, pictórico, suspenso entre os séculos.

Em termos compositivos, o autorretrato reflete ainda o legado da pintura veneziana, em especial de Tiziano, cuja influência na construção da textura cromática e na valorização dos contrastes tonais foi amplamente reconhecida por Delacroix. Ao visitar Veneza em 1834, escreveu: “Tiziano soube dar à carne a luz da alma”.[25] Essa luz da alma, como uma iluminação interior, é precisamente a que transparece no rosto sem brilho de Delacroix, em seu autorretrato.

Finalmente, o gesto de autorrepresentar-se entre sombras e tecidos pesados, de cabeça inclinada, inscreve Delacroix numa genealogia espiritual que remonta a Dürer e Leonardo, em suas concepções do retrato como espelho da alma. O autorretrato torna-se, assim, mais do que uma imagem: é um ato de filiação crítica e sensível à tradição europeia, revisitada com o pathos e a inquietação do espírito moderno.

Referências

  1. O obra é conhecida, também, sob o apelido Portrait de l'artiste (Retrato do Artista), no Louvre.
  2. Starobinski, Jean. L’Inquiétude de l’identité. Paris: Gallimard, 1982, pg 14.
  3. Rosenthal, Angela. “Self and Self-Portraiture in Romanticism”, in: Autobiography and Self-Portraiture in Romanticism. Cambridge: CUP, 2007, pg 63.
  4. Schlegel, Friedrich. Athenäumsfragmente. Berlin: Reclam, 1798.
  5. Delacroix, Eugène. Journal, ed. André Joubin. Paris: Plon, 1932. Publicado em 18 de outubro de 1847.
  6. Baudelaire, Charles. Salon de 1846 Paris: Michel Lévy, 1868. In: Curiosités esthétiques, 1868)
  7. Allard, Sébastien. Delacroix. Paris: Musée du Louvre / Hazan, 2018, pg 70.
  8. Focillon, Henri. Vie des formes. Paris: PUF, 1934.
  9. Dagen, Philippe. Le Monde de la peinture. Paris: Flammarion, 2004, pg 122.
  10. Rancière, Jacques. Le Partage du sensible. Paris: La Fabrique, 2000, pg 14.
  11. Rosenberg, Pierre. De David à Delacroix. Paris: Réunion des Musées Nationaux, 1996, pg 233.
  12. Bazin, Germain. L'époque romantique. Paris: Hachette, 1986, pg 189.
  13. Fried, Michael. Absorption and Theatricality: Painting and Beholder in the Age of Diderot. Chicago: University of Chicago Press, 1980, pg 97.
  14. Rosen, Charles; Zerner, Henri. Romanticism and Realism: The Mythology of Nineteenth Century Art. New York: Viking Press, 1984, pg 218.
  15. Clay, Jean. Figures du pouvoir. Paris: Skira, 1979, pg 45.
  16. Venturi, Lionello. History of Art Criticism. New York: E.P. Dutton, 1936, pg 192.
  17. Goethe, Johann Wolfgang. Zur Farbenlehre. Tübingen: Cotta, 1810.
  18. Valéry, Paul. Degas, danse, dessin. Paris: Gallimard, 1936, pg 15.
  19. van de Wetering, Ernst. Rembrandt: The Painter at Work. Amsterdam University Press, 1997, pg 202.
  20. Delacroix, Eugène. Correspondance générale, ed. André Joubin, vol. III. Paris: Plon, 1935 pg 121.
  21. Crary, Jonathan. Techniques of the Observer. MIT Press, 1990, pg 121.
  22. Rosenberg, Pierre. Delacroix. Paris: Gallimard, 1998, pg 209
  23. Ortega y Gasset, José. Velázquez. Madrid: Espasa-Calpe, 1950, pg 92.
  24. Galard, Jean. Le regard romantique. Paris: Gallimard, 2000, pg 133.
  25. Delacroix, Eugène. Journal. Paris: Plon, 1893. Publicado em 25 de setembro de 1834