Adriana Lecouvreur
| |
---|---|
Adriana Lecouvreur | |
Aleardo Villa – Adriana Lecouvreur | |
Idioma original | Italiano |
Compositor | Francesco Cilea |
Libretista | Arturo Colautti (libreto online) |
Tipo do enredo | Baseado na peça Adrienne Lecouvreur, de Eugène Scribe e Ernest Legouvé |
Número de atos | 4 |
Ano de estreia | 1902 |
Local de estreia | Teatro Lírico, Milão |
Adriana Lecouvreur é uma ópera em quatro atos de Francesco Cilea, com libreto em italiano de Arturo Colautti, baseada na peça teatral Adrienne Lecouvreur (1849), de Eugène Scribe e Ernest Legouvé. A estreia ocorreu em 6 de novembro de 1902, no Teatro Lírico de Milão.
Contexto
[editar | editar código fonte]A mesma peça de Scribe e Legouvé que serviu de base para o libreto de Cilea foi também utilizada por pelo menos três outros libretistas em óperas que levaram exatamente o mesmo título — Adriana Lecouvreur — compostas por músicos diferentes. A primeira foi uma ópera em três atos de Tomaso Benvenuti, estreada em Milão em 1857. As duas seguintes foram dramas líricos em quatro atos: uma composta por Edoardo Vera, com libreto de Achille de Lauzières, apresentada em Lisboa em 1858; e outra por Ettore Perosio,[1] com libreto escrito por seu pai,[2] estreada em Gênova em 1889. Após a estreia da versão de Cilea, nenhuma dessas versões anteriores voltou a ser montada, permanecendo hoje amplamente esquecidas.[3]
A ópera é baseada na vida da atriz francesa Adrienne Lecouvreur (1692–1730). Embora apresente figuras históricas reais, o enredo é em grande parte fictício; o artifício da "morte por violetas envenenadas" costuma ser citado como um dos elementos menos realistas da ópera verista.[4] O libreto já foi criticado por ser um dos textos mais confusos escritos para o palco, e os cortes frequentemente feitos em representações apenas agravam essa dificuldade de compreensão. A duração típica de uma apresentação moderna é de cerca de 135 minutos (sem contar os intervalos).
Histórico de apresentações
[editar | editar código fonte]A ópera estreou no Teatro Lírico, em Milão, no dia 6 de novembro de 1902, com a soprano verista Angelica Pandolfini no papel-título, Enrico Caruso como Maurizio e o barítono lírico Giuseppe De Luca como Michonnet.
A primeira apresentação nos Estados Unidos ocorreu em 5 de janeiro de 1907, pela San Carlo Opera Company, na French Opera House de Nova Orleans, com Tarquinia Tarquini no papel principal. A estreia no Metropolitan Opera aconteceu em 18 de novembro do mesmo ano, em uma produção com Lina Cavalieri e Caruso.[5] A temporada contou com apenas três apresentações, em parte devido a problemas de saúde de Caruso. A ópera só retornou ao Met em 1963, com Renata Tebaldi no papel-título.[6] Essa produção foi remontada por várias décadas, com elencos variados.
Foi nesse papel que o tenor espanhol Plácido Domingo fez sua estreia no Met, em 1968, ao lado de Tebaldi.[7] Ele voltou a interpretá-lo em fevereiro de 2009.[8]
O papel de Adriana sempre foi apreciado por sopranos de voz ampla, com tessitura relativamente baixa (rara vez ultrapassando o si bemol agudo), o que exige grande potência vocal e considerável expressividade dramática, especialmente nos trechos da chamada "Declamação" e na cena da morte. Entre as intérpretes mais renomadas do papel, nas últimas décadas, estão Claudia Muzio, Clara Petrella, Magda Olivero,[9] Renata Tebaldi, Carla Gavazzi, Leyla Gencer, Montserrat Caballé, Raina Kabaivanska, Renata Scotto, Mirella Freni e Joan Sutherland.
Em 2010, Angela Gheorghiu interpretou Adriana na Royal Opera House, em Londres, ao lado de Jonas Kaufmann como Maurizio.[10] Essa montagem, dirigida por David McVicar, foi a primeira nova produção da obra na Royal Opera House desde 1906.[11] Gheorghiu reprisou a personagem com aclamação da crítica na Ópera Estatal de Viena (2014),[12] em Paris (2015)[13] e novamente em Londres, em 2017, ocasião em que celebrou 25 anos de carreira na Royal Opera House.[14]
O Metropolitan Opera apresentou uma nova produção da obra, dirigida por David McVicar, em 31 de dezembro de 2018, com Anna Netrebko como Adriana, Piotr Beczała como Maurizio e Anita Rachvelishvili como a princesa de Bouillon.[15]
Uma gravação de parte do dueto final do último ato, “No, più nobile”, rearranjado como ária solo para tenor, foi realizada por Caruso já em 1902, em Milão, com o próprio Cilea ao piano, para a Gramophone & Typewriter Company e seus selos afiliados.
Personagens
[editar | editar código fonte]Personagem | Tipo de voz | Estreia em 6 de novembro de 1902 Maestro: Cleofonte Campanini |
---|---|---|
Adriana Lecouvreur (Adrienne Lecouvreur), atriz famosa | soprano | Angelica Pandolfini |
Maurizio (Maurice de Saxe), conde da Saxônia | tenor | Enrico Caruso |
Princesa de Bouillon (Louise Henriette Françoise de Lorena) | mezzosoprano | Edvige Ghibaudo |
Príncipe de Bouillon | baixo | Edoardo Sottolana |
Abade de Chazeuil | tenor | Enrico Giordani |
Michonnet, diretor de cena | barítono | Giuseppe De Luca |
Mlle Jouvenot | soprano | — |
Mlle Dangeville | mezzosoprano | — |
Poisson | tenor | — |
Quinault | baixo | — |
Mordomo | tenor | — |
Sinopse
[editar | editar código fonte]- Local: Paris, França
- Época: 1730[16]
Ato I
[editar | editar código fonte]Bastidores da Comédie-Française
A companhia se prepara para uma apresentação e circula ao redor de Michonnet, o diretor de cena. O Príncipe de Bouillon, admirador e patrono da atriz Duclos, também está nos bastidores com seu companheiro, o Abade. Adriana entra recitando versos e responde aos elogios dos colegas com "Io son l'umile ancella" ("Sou a humilde serva do espírito criador"). Sozinho com Adriana, Michonnet tenta declarar seu amor, mas ela revela que já ama outro: Maurizio, supostamente um soldado a serviço do Conde da Saxônia. Maurizio entra e declara seu amor por Adriana ("La dolcissima effigie"). Eles combinam um encontro à noite, e Adriana lhe dá violetas para colocar na lapela. O Príncipe e o Abade retornam: interceptaram uma carta de Duclos marcando encontro com Maurizio na vila do Príncipe. Este, para desmascarar o suposto caso, decide convidar toda a trupe para sua residência após a apresentação. Maurizio, ao receber a carta, cancela o encontro com Adriana, que decide então ir à festa do Príncipe.
Ato II
[editar | editar código fonte]Uma vila à beira do Sena
A Princesa de Bouillon, e não Duclos (que apenas servia de intermediária), espera ansiosamente por Maurizio ("Acerba voluttà, dolce tortura"). Quando ele chega, ela vê as violetas e pergunta de onde são. Maurizio entrega-as a ela, mas confessa que não a ama mais. A princesa desconfia que ele esteja envolvido com outra mulher, mas precisa se esconder ao ouvir o Príncipe e o Abade chegando. Maurizio percebe que pensam que ele está com Duclos. Adriana chega e descobre que Maurizio é, na verdade, o próprio Conde da Saxônia. Ele diz que o encontro era político e que precisa ajudar uma mulher escondida na casa. Adriana aceita ajudá-lo. Durante o intermezzo, com as luzes apagadas, Adriana orienta a mulher — a Princesa — sobre como escapar. As duas desconfiam uma da outra, e a tentativa de fuga se transforma em discussão acalorada antes que a Princesa parta. Michonnet encontra uma pulseira caída pela Princesa e entrega-a a Adriana.
Ato III
[editar | editar código fonte]O Hôtel de Bouillon
A Princesa está obcecada em descobrir quem é sua rival. O Príncipe, interessado em química, guarda um veneno potente que lhe foi confiado pelo governo. Durante uma recepção no local, os convidados comentam a chegada de Michonnet e Adriana. A Princesa acha reconhecer a voz de Adriana e anuncia que Maurizio foi ferido em um duelo. Adriana desmaia, mas logo Maurizio entra ileso, e Adriana se enche de alegria. Ele canta sobre seus feitos na guerra ("Il russo Mencikoff"). Um balé é apresentado: o Julgamento de Páris. Adriana descobre que a pulseira era da Princesa e percebe que são rivais. A tensão cresce quando a Princesa sugere que Adriana recite um trecho de Ariadne Abandonada, mas o Príncipe prefere Phèdre. Adriana aproveita os versos para lançar um ataque velado contra a Princesa, que promete vingança.
Ato IV
[editar | editar código fonte]Um quarto na casa de Adriana
É o dia onomástico de Adriana, e Michonnet aguarda que ela acorde. Adriana está consumida pelo ciúme e pela dor. Seus colegas trazem presentes e a incentivam a voltar aos palcos. Um dos presentes é um colar de diamantes, recuperado por Michonnet, que ela havia empenhado para quitar dívidas de Maurizio. Chega então um pequeno baú com uma nota de Maurizio e as violetas que Adriana lhe dera no teatro. Ela beija as flores ("Poveri fiori") e as joga no fogo. Maurizio chega, pedindo-a em casamento. Eles se abraçam, mas Adriana está trêmula. Logo entra em delírio, e Michonnet e Maurizio percebem que ela foi envenenada — as violetas haviam sido enviadas pela Princesa. Em um momento de lucidez, Adriana diz "Ecco la luce" e morre.
Gravações
[editar | editar código fonte]Ano | Elenco (Adriana Lecouvreur, Princesa de Bouillon, Maurizio, Michonnet) |
Maestro, Orquestra e coro |
Selo[17] |
---|---|---|---|
1950 | Mafalda Favero, Elena Nicolai, Nicola Filacuridi, Luigi Borgonovo |
Federico Del Cupolo, Orquestra e Coro do Teatro alla Scala, Milão |
CD: VAI Cat: 1230 |
1951 | Carla Gavazzi, Miti Truccato Pace, Giacinto Prandelli, Saturno Meletti |
Alfredo Simonetto, Orquestra e Coro da RAI, Milão |
CD: Cetra Opera Collection – Warner Fonit Cat: 8573 87480-2 |
1959 | Magda Olivero, Giulietta Simionato, Franco Corelli, Ettore Bastianini |
Mario Rossi, Orquestra e Coro do Teatro di San Carlo, Nápoles (ao vivo) |
CD: Opera D'Oro Cat: 7037 |
1961 | Renata Tebaldi, Giulietta Simionato, Mario Del Monaco, Giulio Fioravanti |
Franco Capuana, Orquestra e Coro da Accademia Nazionale di Santa Cecilia, Roma |
CD: Decca Cat: 430256-2 |
1975 | Montserrat Caballé, Plácido Domingo, Janet Coster, Orazio Mori |
Gianfranco Masini, Orquestra e Coro da Radio France (ao vivo) |
CD: Opera D'Oro Cat: OPD-1194 |
1977 | Renata Scotto, Elena Obraztsova, Giacomo Aragall, Giuseppe Taddei |
Gianandrea Gavazzeni, Orquestra e Coro da San Francisco Opera, EUA (ao vivo) |
CD: Myto Records Cat: 2MCD 005 234 |
1977 | Renata Scotto, Elena Obraztsova, Plácido Domingo, Sherrill Milnes |
James Levine, Philharmonia Orchestra, Ambrosian Opera Chorus |
CD: CBS Records Cat: M2K 79310 |
1988 | Joan Sutherland, Cleopatra Ciurca, Carlo Bergonzi, Leo Nucci |
Richard Bonynge, Orquestra e Coro da Ópera Nacional Galesa, Cardiff |
CD: Decca Cat: 475 7906 |
1989 | Mirella Freni, Fiorenza Cossotto, Peter Dvorský, Ivo Vinco |
Gianandrea Gavazzeni, Orquestra e Coro do Teatro alla Scala, Milão |
DVD: Opus Arte Cat: OALS 3011D |
2000 | Daniela Dessì, Olga Borodina, Sergei Larin, Carlo Guelfi |
Roberto Rizzi Brignoli, Orquestra e Coro do Teatro alla Scala, Milão (áudio e vídeo) |
DVD: TDK Mediactive Cat: DV-OPADL CD: The Opera Lovers Cat: ADR 200001 |
2009 | Micaela Carosi, Marianne Cornetti, Marcelo Álvarez, Alfonso Antoniozzi |
Renato Palumbo, Orquestra e Coro do Teatro Regio di Torino |
CD: Dynamic Cat: CDS628 EAN: 8007144606282 |
2010 | Angela Gheorghiu, Olga Borodina, Jonas Kaufmann, Alessandro Corbelli |
Mark Elder, Orquestra e Coro da Royal Opera House, Londres (vídeo) |
DVD e Blu-ray: Decca[18] |
2019 | Anna Netrebko, Anita Rachvelishvili, Piotr Beczała, Ambrogio Maestri |
Gianandrea Noseda, Orquestra e Coro da Metropolitan Opera, Nova Iorque (vídeo, 12 de janeiro) |
Met Opera on Demand Requer subscrição[19] |
Nota: Embora Maria Callas nunca tenha interpretado Adriana nos palcos, gravou a ária Poveri fiori com a Philharmonia Orchestra sob regência de Tullio Serafin em 1954.[20]
Referências
- ↑ Ettore Perosio – informações, familiaperosio.com.ar
- ↑ Patrick O'Connor (2002). «Perosio, Ettore». Grove Music Online (em inglês). ISBN 978-1-56159-263-0. doi:10.1093/gmo/9781561592630.article.O903864. Consultado em 19 de abril de 2020
- ↑ Casaglia, Gherardo (2005). History of performances of Adriana Lecouvreur. L'Almanacco di Gherardo Casaglia (em italiano). [S.l.: s.n.]
- ↑ Para uma referência sobre a disseminação de envenenamentos no século XVIII, ver o capítulo "Slow Poisoners" em Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds, de Charles Mackay, pp. 565–592.
- ↑ «Met performance of 18 November 1907». archives.metoperafamily.org (em inglês). Consultado em 20 de novembro de 2020
- ↑ «Met performance of 21 January 1963». archives.metoperafamily.org (em inglês). Consultado em 20 de novembro de 2020
- ↑ «Met performance of 28 September 1968». archives.metoperafamily.org (em inglês). Consultado em 20 de novembro de 2020
- ↑ «Met performance of 6 February 2009». archives.metoperafamily.org (em inglês). Consultado em 20 de novembro de 2020
- ↑ Olivero retornou aos palcos em 1951, após dez anos de aposentadoria, a pedido insistente do próprio Cilea, para interpretar Adriana. Cf. Rosenthal, H. & Warrack, J., "Olivero, Magda", em The Concise Oxford Dictionary of Opera, 2.ª ed., Oxford University Press, 1979, pp. 358–359. ISBN 0-19-311318-X
- ↑ Christiansen, Rupert (19 de novembro de 2010). «Adriana Lecouvreur, Royal Opera House, London, review» (em inglês). The Daily Telegraph. Consultado em 18 de janeiro de 2015
- ↑ «Old2New» (em inglês). 25 de agosto de 2020. Consultado em 20 de novembro de 2020
- ↑ «112 years in the making: Adriana Lecouvreur's belated première in Vienna». bachtrack.com (em inglês). Consultado em 20 de novembro de 2020
- ↑ «Adriana Lecouvreur - Opéra national de Paris (2015)». Opera Online (em inglês). Consultado em 20 de novembro de 2020
- ↑ «The iconic Angela Gheorghiu celebrates 25 years with the Royal Opera House» (em inglês). Evening Standard. 16 de fevereiro de 2017. Consultado em 20 de novembro de 2020
- ↑ Tommasini, Anthony (1 de janeiro de 2019). «Review: Met Opera's Adriana Lecouvreur Bristles With Passion and Danger» (em inglês). The New York Times. Consultado em 1 de janeiro de 2019
- ↑ O resumo da ópera por Simon Holledge foi publicado originalmente em Operajaponica.org e reproduzido aqui com permissão.
- ↑ Gravações da ópera em operadis-opera-discography.org.uk Acesso em 30 de julho de 2012
- ↑ «Cilea: Adriana Lecouvreur». Presto Classical. Consultado em 20 de novembro de 2020
- ↑ Adriana Lecouvreur, 12 de janeiro de 2019, Met Opera on Demand. Requer subscrição
- ↑ Maria Callas - The Voice Within The Heart. Historical Recordings 1952 - 1961. (1988). Bélgica: Gala CD Stereo GL301.
External links
[editar | editar código fonte]Media relacionados com Adriana Lecouvreur no Wikimedia Commons
- Detalhes e libreto de Adriana Lecouvreur, (em alemão)
- Informações sobre a ópera no guia online Opera Inside www.opera-inside.com (em inglês)